Nos Estados Unidos, investir por meio de ETFs deixou de ser uma alternativa de nicho e se tornou o caminho mais comum. Um ETF (do inglês Exchange Traded Fund, ou fundo de índice) é um fundo negociado em bolsa que reúne dezenas ou centenas de investimentos em uma cesta só: ao comprar uma cota, você passa a ter uma parte de tudo o que está dentro dele, sem precisar escolher ação por ação. Ao fim de 2025, os ETFs americanos somavam cerca de US$ 13,4 trilhões e já representavam quase 30% de todo o dinheiro investido em fundos no país, segundo o Investment Company Institute (ICI). No Brasil, o mesmo produto ainda ocupa um espaço mínimo: menos de 1% do que está investido em fundos.
Essa distância é o ponto de partida de uma tese simples. Mercados emergentes como o brasileiro tendem a repetir, com atraso, o que já se consolidou em mercados desenvolvidos. Se a lógica que levou os ETFs a dominarem lá fora se sustenta aqui, e os dados sugerem que sim, eles ainda têm um longo caminho a percorrer no Brasil. Uma ressalva desde o início: o que segue é uma análise apoiada em histórico e em estudos públicos, não uma promessa de rentabilidade nem recomendação de qualquer produto.
O abismo entre Brasil e Estados Unidos
Vale dimensionar o contraste. Nos Estados Unidos, quase um terço do dinheiro em fundos está em ETFs. No Brasil, menos de 1%. A diferença é da ordem de dezenas de vezes.
Isso não significa que o mercado brasileiro esteja parado, ao contrário. Ao longo de 2025, o número de ETFs disponíveis na B3 subiu de cerca de 105 para 140, quase um lançamento por semana. O patrimônio investido nesses fundos passou de R$ 58 bilhões em janeiro para mais de R$ 91 bilhões em dezembro, e o número de investidores superou 1,2 milhão, mais de dez vezes o patamar de 2019. O crescimento é real e acelerado. O ponto da tese é que ele parte de uma base ainda pequena.
| Brasil | Estados Unidos | |
| Fatia dos ETFs no total de fundos | menos de 1% | cerca de 30% |
| Patrimônio em ETFs | mais de R$ 91 bilhões | US$ 13,4 trilhões |
Os números são de fim de 2025 (fontes: ICI, nos Estados Unidos; B3 e ANBIMA, no Brasil). O movimento é global: a indústria mundial de ETFs alcançou cerca de US$ 19,85 trilhões ao fim de 2025, alta de 33,7% no ano, segundo a ETFGI. Nos mercados desenvolvidos, investir de forma ampla e barata deixou de ser tendência e virou estrutura. A pergunta natural é: por quê?
Por que essa forma de investir venceu lá fora
A ascensão dos ETFs não foi modismo. Ela se apoia em três constatações que aparecem de forma recorrente em estudos sérios e que, juntas, formam um argumento sólido. E não se trata de opinião nossa: são fontes públicas e reconhecidas.
1. Quem tenta escolher as melhores ações raramente supera a média no longo prazo. Há duas formas de investir em fundos. Na primeira, um gestor estuda o mercado e tenta escolher as ações que vão render mais que a média. Na segunda, o fundo não tenta adivinhar nada: apenas replica um índice, ou seja, uma cesta que representa o mercado inteiro, como o Ibovespa ou o S&P 500. O ETF costuma seguir esse segundo caminho, e por isso custa menos. A pergunta é se compensa pagar mais caro pela primeira opção. Os relatórios SPIVA, produzidos pela S&P, acompanham isso há anos, e a resposta é consistente: no horizonte de 20 anos, cerca de 94 de cada 100 fundos de ações nos Estados Unidos renderam menos que o índice. Em nenhuma categoria a maioria dos gestores superou o índice em 15 anos. O padrão se repete na América Latina, inclusive entre os fundos brasileiros.
2. Quase todo o ganho da bolsa vem de pouquíssimas empresas. Um amplo estudo do professor Hendrik Bessembinder (Financial Analysts Journal, 2023), com cerca de 64 mil ações ao longo de três décadas, chegou a um resultado contraintuitivo: cerca de 57% delas renderam menos do que um título público americano, ou seja, menos do que a aplicação mais segura que existe. Praticamente toda a riqueza gerada acima desse piso veio de apenas 2,4% das empresas, e só cinco companhias responderam por 10,3% do total. Como o resultado de uma carteira depende de capturar esses raros vencedores, e identificá-los de antemão é quase impossível, deixar um deles de fora pode comprometer o desempenho inteiro. Investir no mercado amplo, de forma barata, é a maneira mais confiável de não ficar de fora deles.
3. A forma de dividir o dinheiro pesa mais do que a escolha de cada investimento. Uma linha de estudos clássicos, iniciada por Brinson, Hood e Beebower nos anos 1980 e confirmada depois, mostra que cerca de 90% da diferença de resultado entre carteiras ao longo do tempo vem de uma única decisão: como distribuir o dinheiro entre os grandes tipos de investimento, como ações, renda fixa e imóveis. A escolha de qual ação ou fundo específico comprar explica muito pouco. Se a divisão pesa tanto e a seleção pesa tão pouco, faz sentido concentrar esforço em montar uma boa divisão, de forma barata, que é justamente o que os ETFs permitem.
Juntas, as três constatações explicam o avanço do modelo: a gestão que tenta superar o índice raramente vence no longo prazo, o retorno se concentra em poucas empresas difíceis de prever, e a forma de dividir o dinheiro pesa mais do que a escolha de cada investimento.
Por todos esses motivos e outros, o Brasil tende a repetir o caminho já trilhado nos mercados desenvolvidos. São forças estruturais, não modismo: a direção é a que os mercados maduros já trilharam, mas a velocidade dependerá de juros, tributação e escolhas que ainda serão tomadas no nosso país.
Para acompanhar esse mercado em formação, vale seguir o ETFs Radar, site extremamente completo para análise e comparação de ETFs.
O que isso muda para você
A conclusão desta análise não é "compre ETF". É algo mais sóbrio e, talvez, mais útil: a evidência sugere que custo e diversificação pesam mais no resultado de longo prazo do que a busca pelo gestor certo ou pela ação vencedora. É o que os estudos de SPIVA, Bessembinder e Brinson mostram, cada um por um ângulo.
E aqui entra a questão da independência. A forma como o profissional é remunerado define se a recomendação olha primeiro o custo do cliente ou a comissão de quem vende. Um produto barato como um ETF raramente é o que paga a maior comissão, razão pela qual muitas vezes sequer é oferecido. Entender a diferença entre consultor, assessor e gerente de banco é o primeiro passo para avaliar se o conselho que você recebe está alinhado ao seu bolso. A Horizon Advisors atua como consultoria de investimentos independente, no modelo fee-based: quem remunera é você, não a comissão de um produto, justamente para que a análise de custo e alocação venha antes da venda.
Como o custo é uma das poucas variáveis sob o controle do investidor, vale dimensioná-lo. A calculadora de custo de investimento mostra uma estimativa de quanto as taxas podem consumir do patrimônio ao longo dos anos. É uma simulação, não um número exato, mas revela a ordem de grandeza.
Se você quer entender como custo, alocação e independência se aplicam ao seu caso, a conversa começa por aí: olhar a estrutura da sua carteira antes de qualquer produto. É esse o trabalho de uma consultoria que responde só a você.
