Cenário Externo
Agosto foi um mês em que os investidores ao redor do mundo precisaram acompanhar sinais diferentes vindos da economia americana. De um lado, a atividade continuou mostrando força, com a indústria registrando seu melhor resultado desde maio de 2022. De outro, o mercado de trabalho começou a perder ritmo: em julho, foram eliminadas 23 mil vagas, enquanto os salários cresceram 3,2% em 12 meses. Essa combinação deixou uma dúvida importante no ar: a economia está apenas desacelerando de forma saudável ou começando a perder força de maneira mais relevante?
A resposta é especialmente importante para o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, que manteve os juros entre 3,50% e 3,75% ao longo do mês. O desafio é encontrar um equilíbrio entre controlar a inflação e, ao mesmo tempo, evitar que juros elevados pressionem demais a economia. Os dados de preços trouxeram algum alívio, mas ainda não foram suficientes para afastar completamente a preocupação com a inflação.
Outro ponto de destaque foi o comportamento dos juros de longo prazo nos Estados Unidos. Além das decisões do banco central, os investidores passaram a olhar com mais atenção para o tamanho da dívida americana, que ultrapassou US$ 40 trilhões. Para o investidor, isso importa porque quanto maior a incerteza sobre as contas de um governo, maior tende a ser a remuneração exigida para financiar essa dívida.
Cenário Local
No Brasil, agosto mostrou uma economia começando a perder velocidade. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, um pouco acima das expectativas, mas os detalhes do número foram menos positivos. O consumo das famílias e a construção civil recuaram 0,4%, enquanto o crescimento foi sustentado principalmente pela agropecuária e pela indústria extrativa. Em outras palavras, o país continuou crescendo, mas justamente algumas das áreas mais ligadas ao consumo e ao dia a dia das famílias começaram a mostrar sinais de desaceleração.
A inflação, por sua vez, trouxe notícias melhores. O IPCA de julho subiu apenas 0,07%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,44%. O IPCA-15 de agosto, que funciona como uma prévia da inflação oficial, apresentou queda de 0,40%. Ainda assim, alguns preços continuaram pressionados, especialmente os serviços que dependem mais diretamente da mão de obra. O mercado de trabalho permaneceu forte, com a taxa de desemprego recuando para 5,3%.
Mesmo com um ambiente internacional relativamente favorável aos mercados emergentes, o Brasil registrou uma saída expressiva de investidores estrangeiros da bolsa. Até 28 de agosto, a retirada chegou a US$ 3,6 bilhões pela B3. Esse movimento ajudou a explicar o desempenho mais fraco do real durante o mês e refletiu uma combinação de realização de lucros e maior cautela diante das incertezas relacionadas ao processo eleitoral.
Renda Fixa
No Brasil, os dados de inflação mais favoráveis ajudaram principalmente os títulos de prazo mais curto, enquanto os títulos de inflação de prazo mais longo também tiveram desempenho relevante. Nos índices de referência, o CDI avançou +1,09%, o IRF-M, que acompanha os títulos prefixados, subiu +1,04%, e o IMA-B, formado por títulos ligados à inflação, teve alta de +1,58%.
Um ponto importante é que o retorno de um título de renda fixa não vem apenas dos juros que ele paga. O preço do título também pode variar diariamente. Quando as taxas negociadas no mercado mudam, os preços dos títulos existentes também se ajustam. Em agosto, esse movimento ajudou os títulos ligados à inflação, especialmente os de prazo mais longo, a apresentarem um desempenho superior ao CDI.
Renda Variável
Nas bolsas, agosto apresentou um cenário diferente entre Brasil e exterior. No mercado internacional, o MSCI AC, que reúne ações de países desenvolvidos e emergentes, avançou +2,70%, enquanto o S&P 500, principal índice da bolsa americana, subiu +2,62%. Para o MSCI EM, o desempenho foi de +3,40%.
Nos Estados Unidos, os resultados das empresas continuaram sendo um importante suporte para o mercado. A temporada de balanços mostrou lucros acima das expectativas, enquanto a inteligência artificial permaneceu como um dos principais temas de investimento. Ao mesmo tempo, os investidores passaram a olhar além da tecnologia em si, buscando entender quanto dos grandes investimentos em inteligência artificial está efetivamente se transformando em receitas e lucros.
No Brasil, o Ibovespa caiu -0,33% em agosto. A bolsa chegou a acumular uma queda mais forte ao longo do mês, mas recuperou parte das perdas na reta final. O movimento foi acompanhado por mudanças nas expectativas relacionadas às eleições e pela entrada de recursos estrangeiros entre os dias 21 e 28. Assim, agosto reforçou uma característica importante do mercado brasileiro: além dos resultados das empresas e dos indicadores econômicos, o fluxo de dinheiro entre diferentes países pode ter papel relevante no comportamento dos preços dos ativos.
