Enquanto os mercados locais têm se concentrado na nova regra fiscal, o tópico principal nos mercados financeiros é a interrupção do aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA). Essa pausa pode ser um sinal claro de que o aumento das taxas de juros nos EUA está chegando ao fim, o que é um sinal importante que os investidores costumam prestar atenção.

Agora, a próxima etapa é determinar quanto tempo essa pausa nos aumentos das taxas de juros vai durar. Para entender isso, é necessário analisar a mudança na economia de um estado de desaceleração para um possível estado recessivo, que o Federal Reserve já está considerando. Se isso for verdade, a autoridade monetária poderia considerar uma queda de juros em um horizonte não muito distante.

Embora acreditemos que é um pouco cedo para discutir a redução das taxas de juros, dado o progresso dos indicadores econômicos, sabemos que esse será o assunto mais importante nos próximos meses, envolvendo análises do mercado de crédito, do mercado de trabalho e da evolução da inflação.

EUA

Depois de um mês de março turbulento, com a quebra do Silicon Valley Bank e a compra do Credit Suisse, os mercados globais se estabilizaram um pouco no final de março e abril, e o S&P500 subiu 1,46% no mês apesar de que a crise bancária americana tenha tido outro capítulo neste fim de semana, com o resgate do First Republic Bank pelo JPMorgan, os mercados já pareciam estar esperando por isso. O grande desafio agora é prever qual será o impacto do mercado de crédito mais  pertado nos próximos meses.

Em geral, houve uma estabilização na tensão bancária nas últimas semanas, embora ainda haja riscos no médio prazo, especialmente em relação às instituições menores expostas ao mercado de crédito imobiliário corporativo. No entanto, há ferramentas para lidar com futuras tensões. É provável que os bancos continuem tornando as condições de crédito mais rigorosas, o que nos leva a crer em um aumento do risco de uma recessão mais forte do que o mercado espera hoje.

Quanto à inflação, houve uma perspectiva mais positiva em março, especialmente em relação aos serviços, que são menos voláteis. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) foi de 0,05% em março em comparação com a expectativa de 0,20%. No entanto, mesmo nessas métricas subjacentes, as médias móveis de 3 e 6 meses anualizadas mostram uma inflação elevada (entre 4,5% e 5%), sugerindo que a tendência de inflação continua desafiadora para alcançar um CPI abaixo de 3% neste ano. A inflação não terá mais a ajuda da deflação de energia e bens nos próximos meses, portanto, é provável que continue a apresentar números mensais elevados.

Brasil

No Brasil, o debate econômico deve continuar centrado no novo arcabouço fiscal, que teve suas diretrizes gerais anunciadas em março e o projeto de lei enviado ao Congresso em abril. Estamos em uma fase importante de definição de nossos princípios para os próximos quatro anos, com uma nova regra fiscal sendo desenvolvida e levantando mais dúvidas do que certezas no curto prazo.

De acordo com o Ministro da Fazenda, a proposta apresentaria um limite para o crescimento das despesas, baseado no crescimento das receitas passadas, bem como uma meta para o resultado primário (arrecadação menos despesas).

A novidade dessa vez é que algumas exceções foram incluídas na proposta. Uma delas chama a atenção: caso a meta para o resultado primário não seja cumprida, não haverá qualquer tipo de responsabilização. Segundo o texto, "o descumprimento da meta não configura infração a esta lei complementar". Isso significa que a única consequência ao não cumprimento da meta de primário será a redução do crescimento real da despesa primária.

Isso acende um alerta, pois as metas definidas são ambiciosas e exigirão forte elevação de receitas. Além das novas formas de arrecadação já divulgadas, será preciso gerar mais receita. A questão que surge é de onde virá todo esse dinheiro.

Sobre a Selic, mesmo com a divulgação do texto oficial do novo arcabouço fiscal, o Banco Central deixou claro que a apresentação do plano não teria uma relação direta com a redução das expectativas de inflação. Adicionalmente, os riscos em torno do sistema de metas de inflação, que residem até o fim de junho, deveriam manter a postura conservadora da autoridade monetária. Em relação aos dados mais recentes, o índice IPCA-15 teve uma piora na sua composição, mas os dados de serviços e emprego (CAGED) foram surpreendentemente positivos.

Contudo, a depender da evolução do novo plano fiscal no Congresso e da deterioração mais intensa das condições de crédito, pode haver um espaço para antecipação do ciclo de corte na taxa Selic.

China

A China teve um bom desempenho no primeiro trimestre do ano, com sua economia crescendo mais do que o esperado, especialmente devido à demanda interna. Isso se deve à reabertura de muitas atividades econômicas desde o final do ano passado. As vendas no varejo também surpreenderam positivamente em março, crescendo ainda mais do que o previsto. Além disso, um indicador de serviços também mostrou que a recuperação econômica continua em abril. No futuro, para que o consumo continue se recuperando, é importante que a renda aumente e que o consumidor se sinta mais confiante.

Europa

O ciclo de alta de juros na Europa é muito mais recente e, portanto, seu impacto negativo sobre a economia ainda está no início, enquanto o Fed já está claramente mais avançado nesse processo e uma parte maior do impacto sobre crescimento econômico já tende a ter ficado para trás. Os membros ainda pontuam a necessidade de novos aumentos de juros nas próximas reuniões, não apenas em maio - se o cenário base permanecer, ou seja, sem estresse financeiro.

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Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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