O início do ano de 2023 tem demonstrado que os mercados continuam instáveis em relação à volatilidade dos juros. O atual ciclo de ajuste de política monetária global (aumento dos juros em todo o mundo), o mais intenso das últimas quatro décadas, representa um desafio para as alocações financeiras.

Para complementar, a situação dos bancos pequenos e regionais nos EUA, sobretudo os especializados em nichos temáticos, tem sinalizado que a política monetária pode ainda estar lidando com as consequências dos últimos doze meses. De certa forma, aumentou a expectativa de um menor crescimento da economia nos próximos meses e maiores sinais de uma recessão.

Isto coloca um dilema para os Bancos Centrais no mundo desenvolvido: quanto a preocupação com a solidez do sistema financeiro deveria interferir o processo de alta de juros necessário para controlar as pressões inflacionárias?

Inicialmente, foi adotado o "princípio da separação", que envolve o uso de instrumentos diferentes para lidar com questões de estabilidade financeira. Assim, o Fed, o BCE e o Banco Nacional da Suíça aumentaram as taxas de juros em março, enquanto forneciam volumes relevantes de liquidez ao sistema bancário. Apesar da aprante estabilização das medidas tomadas, é provável que a restrição de crédito se intensifique após os eventos de março, contribuindo para conter as pressões inflacionárias.

Brasil

Tivemos um acúmulo de sinais mais negativos em relação ao crescimento do país. Primeiro, com uma deterioração mais evidente do mercado de trabalho, com alta na taxa de desemprego e arrefecimento da criação de postos de trabalho. Além desses fatores, a manutenção da Selic em 13,75% e tom duro no comunicado do Copom traz uma mensagem de um cenário bastante complexo para o Brasil: inflação ainda elevada e desaceleração do crescimento.

Embora tenha havido um certo alívio inicial após o anúncio do novo arcabouço fiscal, a reação dos agentes foi mista, uma vez que uma análise mais aprofundada aponta para um aumento contínuo dos gastos e um aumento significativo da carga tributária. O controle da despesa está vinculado à variação dos gastos, o texto define que o crescimento anual da despesa estará limitado a 70% da variação da receita primária dos últimos 12 meses. Esse objetivo será combinado com uma meta anual de superávit primário.

O plano praticamente não cita cortes de despesas, o que mostra uma dificuldade maior na correção de qualquer desvio de arrecadação. Sendo assim, imaginamos que esse plano fiscal não terá a eficácia necessária e o país deve encontrar muitos problemas para alcançar uma trajetória fiscal saudável.

Este não é o melhor modelo do mundo. Certamente será de difícil execução. Outras opções existiam. Contudo, na atual conjuntura, a manutenção de um limite de despesas vindo deste governo é positivo.

Outro fato relevante em março, foi a reunião do Copom. “O Banco Central manteve a taxa de juros na sua reunião de março, como amplamente esperado, em comunicado - duro, sóbrio, dando peso às questões relevantes e ignorando as pressões "pouco técnicas" recentes (pressões políticas para abaixar os juros). Os cenários condicionais oficiais seguem piorando. A possibilidade de cortes mais tempestivos na Selic só aparecerá com mudanças nas condições de contorno, sejam negativas (crise global) ou positivas (coordenação entre as políticas públicas locais).”

EUA e Europa

Durante o mês de março, houve uma grande preocupação com a estabilidade financeira do setor bancário americano, devido à possibilidade de falências de bancos regionais . Isso gerou incertezas não só sobre a economia e o crédito, mas também sobre a política monetária.

Como resposta, o Fed, o Tesouro e a FDIC adotaram novas medidas para garantir a liquidez do sistema bancário e assegurar a estabilidade financeira. Ao mesmo tempo, o FOMC (comitê de política monetária) voltou a apertar a política monetária e indicou que poderia tomar mais medidas no futuro.

Embora reconheça que o mercado de crédito ainda pode sofrer um aperto, Powell acredita que a desaceleração no mercado de crédito poderia substituir a necessidade de aumentar ainda mais os juros.

No entanto, é importante ressaltar que o cenário inflacionário não apresentou melhorias, com dados do núcleo do CPI e do PCE surpreendendo positivamente e indicando uma tendência de inflação mais próxima de 4% até o final do ano (com estimativa de 3,8%). Esse seria um ambiente para mais altas de juros, mas como o FOMC pontuou, a desaceleração adicional do crédito pode gerar um aperto das condições financeiras que substituirá altas adicionais das taxas de juros.

Um movimento similar aconteceu na Europa com o Credit Suisse Group AG, banco que sofreu intervenção das autoridades suíças e foi absorvido pelo então concorrente UBS.

Mesmo com a resultante aparente estabilização do sistema financeiro, o aperto de crédito provavelmente se intensificará a partir dos eventos de março, fazendo uma parte do trabalho de conter pressões inflacionárias. Alternativamente, em caso de nova crise envolvendo bancos, a queda mais abrupta da atividade poderia mesmo levar à interrupção de altas ou a quedas de taxas de juros, como já precificam os mercados até o fim do ano.

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Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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