Estamos próximos do fim do ciclo de aperto de juros global? A incerteza tem influenciado os preços dos ativos no mercado internacional neste segundo trimestre. Em abril, parecia que o fim do aperto monetário, especialmente nos Estados Unidos, estava próximo. No entanto, em maio, o mercado voltou a precificar possíveis aumentos adicionais nas taxas de juros e a adiar o início do ciclo de cortes. A maioria dos países ocidentais também mostrou um relaxamento nas condições financeiras em abril, seguido de um aperto em maio.

Essas mudanças foram impulsionadas por surpresas positivas no crescimento econômico, fortes mercados de trabalho e uma resistência à queda da inflação maior do que o esperado no início do ano.

No entanto, a maioria dos analistas concorda que o emprego e a atividade econômica começarão a sentir os efeitos do aperto monetário implementado nos últimos doze meses em um futuro próximo. Isso provavelmente resultará em uma desaceleração mais rápida do crescimento e uma diminuição nas taxas de inflação na virada do ano.

EUA

No mercado norte-americano, os investidores continuam esperando cortes de juros no curto prazo (apesar dos índices de inflação continuarem rodando acima da meta do Fed e a economia doméstica não dar sinais de desaceleração relevante). Puxado pelas grandes empresas de tecnologia, o S&P500 terminou o mês de maio em 4.179, perto das máximas dos últimos 12 meses. Apesar da alta, a diferença de comportamento das mega-techs e o restante das empresas persiste, com as últimas sofrendo com alguma pressão de custos e taxas de juros mais altas. Neste ambiente, o Fed deve manter estável a taxa de juros em sua reunião em meados de junho e aguardar por mais dados para definir suas próximas decisões (se permanece parado ou volta a subir os juros).

Brasil

No Brasil, os ativos locais têm apresentado um desempenho positivo, operando relativamente isolados das grandes flutuações observadas no cenário global. Isso parece paradoxal diante do desânimo gerado pelas medidas macro e microeconômicas propostas até o momento pelo novo governo.

Essa situação pode ser explicada por três fatores positivos de curto prazo para o Brasil, que têm pouco a ver com as ações do novo governante. Primeiramente, desde o início do ano, o cenário global tem mostrado uma flexibilização, como descrito anteriormente, com potencial para se tornar mais favorável aos ativos de países emergentes no segundo semestre. Em segundo lugar, há uma revisão para cima das perspectivas de crescimento econômico em 2023, em grande parte devido a uma safra agrícola recorde, reformas implementadas nos últimos anos e um setor de serviços impulsionado por um mercado de trabalho aquecido. Por último, surpresas negativas na inflação aparentemente refletem a combinação do impacto defasado do aperto monetário ocorrido desde o ano passado e a queda global nos preços das commodities, incluindo o setor de energia.

Essas surpresas têm levado a revisões para baixo da inflação deste ano e criado a perspectiva de antecipação do início do ciclo de redução da taxa Selic para o terceiro trimestre.

Resumidamente, enquanto as iniciativas adotadas pelo governo desde janeiro têm trabalhado para enfraquecer a economia brasileira a médio prazo, no curto prazo a combinação de ventos externos favoráveis, maior crescimento econômico e a proximidade do início do ciclo de queda da taxa de juros podem continuar sustentando os ativos brasileiros nos próximos três meses.

China

A mobilidade na China aumentou substancialmente desde a reabertura e empresas de bens de luxo e casinos têm apresentado boa performance. Entretanto, o principal motor da economia chinesa, o mercado de construção residencial, responsável no agregado por quase 25% do PIB chinês, não tem mostrado sinais críveis de recuperação.

Essa fraca tração da reabertura para os setores mais tradicionalmente associados às recuperações da economia chinesa tem causado reversão no preço dos ativos locais. A demanda por minério continua caindo e o mercado acionário chinês reverteu parte substancial dos ganhos da segunda metade de 2022.

Com uma reabertura mais anêmica na China, estamos seguindo de perto os potenciais efeitos colaterais em outras geografias como a Europa, que tende a se beneficiar de um maior crescimento no continente asiático.

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Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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