No início do mês passado, o relatório de empregos nos Estados Unidos (Payroll) veio muito abaixo das expectativas, causando temor de que a economia americana estivesse desacelerando a ponto de entrar em uma recessão profunda. No entanto, os dados subsequentes mostraram uma economia resiliente, com números de crescimento (como PIB, produção e varejo) que superaram as expectativas, e índices de inflação que continuaram controlados. Essa combinação aumentou as apostas de que o Federal Reserve (Fed) começará a cortar os juros ainda este ano, o que trouxe um otimismo renovado para os mercados, especialmente nos emergentes como o Brasil.

Não foram apenas as condições externas que trouxeram alívio ao mercado. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) divulgado em agosto indicou que, apesar das adversidades, a economia brasileira continua superando as expectativas de crescimento. Embora a inflação ainda seja uma preocupação, a postura mais diligente e cautelosa do Banco Central em relação às metas inflacionárias contribuiu para frear a alta do dólar e dos juros.

Outro aspecto relevante foi a temporada de balanços do segundo trimestre de 2024, que apresentou resultados acima do esperado para a maioria das empresas brasileiras, sinalizando que o pior já pode ter passado. Isso traz um otimismo renovado para os ativos locais.

Renda Fixa

Com a economia brasileira mostrando sinais de crescimento acima do esperado, como a produção industrial em alta e a redução do desemprego, o Banco Central sinalizou que pode ser necessário aumentar a Selic novamente para controlar a inflação. No entanto, essa decisão será tomada com cautela, principalmente diante da troca de presidente do Banco Central que ocorrerá em breve.

Por outro lado, a expectativa de corte de juros nos EUA aliviou a pressão nos juros futuros do Brasil, resultando em um desempenho positivo para a renda fixa: CDI (Pós-Fixados) +0,87%, IMAB (Inflação) +0,52%, e IRFM (Prefixados) +0,66%.

Multimercado

O índice IHFA, que mede o retorno médio da classe de multimercados, apresentou um desempenho positivo, registrando uma rentabilidade de +0,83% no mês (29/08).

Os fundos multimercados continuam enfrentando desafios para gerar retornos excedentes, especialmente quando observamos o desempenho agregado nos últimos três anos. Recentemente, uma parcela desses fundos reduziu suas exposições a ativos brasileiros e aumentaram as alocações em ativos internacionais, especialmente nos EUA. Com a aproximação de um ciclo de cortes nas taxas de juros americanas, os fundos multimercados podem encontrar novas oportunidades de ganho, principalmente em ativos de risco no mercado internacional.

Renda Variável

O Ibovespa teve um desempenho impressionante em agosto, com alta de 6,54%, impulsionado pela melhora nas condições monetárias nos Estados Unidos e por um discurso mais firme do Banco Central do Brasil no sentido de subir juros se for necessário para combate da inflação. A expectativa é que essas melhorias continuem sendo o principal motor das ações brasileiras no curto prazo. Além disso, os múltiplos ainda atraentes das ações, mesmo após a recente recuperação, e o forte crescimento dos lucros das empresas, reforçam um cenário positivo para a renda variável no Brasil. Contudo, a possibilidade de um novo ciclo de alta de juros no Brasil pode fortalecer o real e reduzir as taxas de longo prazo, mas também pode frustrar investidores que esperam uma economia mais robusta em 2025.

O S&P teve um retorno de 2,28% no mês. 98% das companhias do S&P divulgaram os seus resultados no 2T24. O lucro líquido apresentou um crescimento de 11,4% a/a, com uma surpresa de 5,2% em relação às estimativas do consenso. No total, 80% das companhias reportaram resultados considerados positivos pelo mercado.

Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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